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07.08.2009
MATEMÁTICO
João Ramalho Santos
A banda desenhada alternativa, ou independente, ou iconoclasta, ou pessoal ou (auto) reflexiva nunca deixou de ter espaço em Portugal. Sempre em fanzines ou em projectos que cruzavam outras artes plásticas, institucionalmente a partir da actividade da Bedeteca de Lisboa. Da Chili com Carne ao “Venham + 5”, passando pela Imprensa Canalha, Mmmnnnrrrg, Gambuzine e Opuntia Books, entre muitas outras publicações e ideias, a sua presença recente (com cambiantes) é óbvia. Como todas as formas de BD tem qualidades e limitações, paladinos e detractores, obras e poses. Ninguém pode é dizer que está pouco desenvolvida entre nós. Pelo contrário. O que ainda não aconteceu na BD nacional foi o usar elementos cultivados nessas coordenadas para criar histórias interessantes que transcendam os nichos e cheguem a um público alargado, revolucionar o «mainstream».
Exactamente o que fizeram autores francófonos como Sfar, Trondheim, Larcenet ou David B.. Na verdade é pior do que isso, no sentido em que falta o «mainstream» português, apenas avistado aqui e ali; de tal modo que nos chegamos a entusiasmar com obras meramente competentes. Que dizer então quando surge um trabalho mesmo (mas mesmo) bom? “A fórmula da felicidade” (Nuno Duarte e Osvaldo Medina) é uma surpresa quase total, não fosse o reconhecimento imediato da opção gráfica tomada. É certo que no uso de animais antropomorfizados há influências de fábulas clássicas, mas é também evidente que essa influência se faz via a série “Blacksad”, quer em termos do traço de Juanjo Guarnido, quer no modo como Antonio Diaz Canales usa “características” dos animais para definir visualmente as personagens, sem dar atenção a possíveis incongruências.
Que uma égua tenha como amante um tigre e seja mãe de um cão, o qual, por sua vez, tem interesse amoroso por uma gata e é vitimizado por um boi é muito menos importante do que vincar simbolicamente que uma é viciada em «cavalo», outro um predador, outro leal e inteligente, outra emocionalmente distante, o último um bruto acéfalo. No entanto, se não se podia deixar de referir “Blacksad”, é igualmente justo dizer que “A fórmula da felicidade” e vai numa direcção distinta, a distância entre um policial hard-boiled «concreto» e aquilo que é, de facto, uma fábula.
O ponto de partida lembra o «sketch» dos Monty Python no qual se inventa (para fins militares…) uma piada tão engraçada que toda a gente morre (literalmente) a rir quando a ouve. Neste caso o jovem prodígio Victor sempre se refugiou no estudo, e concretamente na beleza da Matemática, para transcender as limitações de uma vida familiar e social difíceis. O seu entusiasmo/amor pelos números é evidente, como evidente é a dificuldade em o transmitir a alunos que apenas pretendem que o “programa” se cumpra, ou a amigos e conhecidos para quem o significado profundo das equações passa inteiramente ao lado (a Sociedade Portuguesa de Matemática devia prestar atenção a esta BD).
Até que um dia, ao desenvolver trabalho prático para a sua Tese, Victor consegue o impossível: representar quantitativamente a felicidade através de uma equação matemática. A qual, quando dita em voz alta, induz em quem a ouve um estado de mais pura exaltação, independentemente (e aqui entramos no domínio da fábula) de o visado perceber aquilo que a fórmula representa.
Como um poema sublime numa língua incompreensível que, no entanto, apenas parece ganhar alma pela boca do seu criador. O resultado deste milagre matemático é o desenvolvimento lógico de uma premissa que não o é tanto. Multidões anónimas rumam à casa de Victor, buscando aliviar a sua existência diária através de leituras da fórmula, prestando culto a uma força que não entendem. Por outro lado, o que antes era apenas uma curiosidade indemonstrável tomou-se agora um claro e apetecível instrumento de poder. Como todos os Profetas involuntários Victor pasma e contorce-se com a revolução no seu mundo, hesitando entre opções e oportunidades. O argumento de Nuno Duarte tem a inteligência subtil de mesclar complexidade com singeleza de modo a que o óbvio nunca o pareça. E que dizer do traço de Osvaldo Medina? Decorativo? Bonito? Correcto? Eficaz? Directo? Ao serviço pleno da narrativa? Tudo isso, e brilhantemente. Às vezes no meio nacional dá ideia ser quase pecado fazer este tipo de BD, quando é a que faz mais falta, até pela raridade (Rui Lacas é outro autor a citar a este nível).
Depois de alguns projectos interessantes (mesmo considerando as suas limitações) Mário Freitas e a Kingpin têm aqui, em potência, a sua primeira grande BD. Falta «apenas» a segunda parte (no fundo, conhecer como os autores abordam o final) para confirmar esta impressão.
A FÓRMULA DA FELICIDADE 1. Argumento de Nuno Duarte, desenhos de Osvaldo Medina, cores de Ana Freitas, Gisela Martins e Jorge Coelho, desenvolvimento Matemático de Filipe Oliveira. Kingpin Books, 46 pp., 12,95 euros.